
O documentário Planta de Raiz Profunda parte da narrativa pessoal de
Francisca Américo dos Reis, uma reconhecida parteira, raizeira e benzedeira
de Goiás, que quis contar ao mundo sua história pessoal. A partir de suas
memórias contadas – e de como ela quer as contar – buscamos traduzir no
filme a complexa personagem que ela nos mostrou, com várias camadas,
capaz de despertar diversos sentimentos em quem a houve e a vê. Uma
senhora brava, às vezes amarga, e que demonstra certo conservadorismo,
mas que é, ao mesmo tempo, sensível, flexível e sonhadora.
Dona Francisca é, no filme, uma metáfora da vida, que se vê corroída pela
morte em espreita, e da Terra, que corroída pela ação humana. Sua narrativa
é encantadora e ao mesmo tempo desconcertante, porque nos intima o
tempo todo a observar nossa própria conduta. Quisemos mostrá-la exigente
conosco, como ela foi, em toda a sua trajetória, exigente consigo mesma – que
é justamente como sua própria vida foi exigente com ela.

Temos assim, uma câmera que a persegue pra todo canto, ouve e amplifica,
além do que ela quer contar, também o que ela diz pra si mesma, os
murmúrios de uma conversa íntima com as plantas, com os bichos, com o
tempo. Ela é perseguida no trabalho e no descanso, nos momentos íntimos e
públicos. O que se mostra é um cotidiano repetitivo, repleto de pequenas
ações, que podem até parecer apenas corriqueirices de uma velha senhora,
mas que se compõem, juntas, em uma ação política intensa, onde tudo tem
uma motivação nobre. É a vida – toda e qualquer vida – como valor primeiro,
como aquilo que merece o maior cuidado. À cuidadora, no entanto, vê-se que
o cuidado faltou. Ela fala e reclama disso. Ela quer também mostrar suas
dores: feridas abertas e sequelas.
Essa dureza da vida material dialoga, na narrativa e no filme, com sua
espiritualidade. O motor e a guia de Francisca é a magia, é o que ela capta e
compreende como verdade de uma outra camada de existência. Ela está conectada à trama e se deixa navegar, sem querer controlar e interromper
ciclos que entende como seus. A ruptura com a violência, no entanto, é um
dos momentos mais importantes em sua narrativa de si.
Muitos dias se passam, do início ao fim das filmagens, mas o tempo do filme
não é linear. Apesar de contar uma história que vai da infância à velhice, o
tempo que marca a narrativa é o cotidiano, duro e cíclico dos plantios,
colheitas, manejos e preparos. O vai e vem da mente do passado ao presente
e vice-versa. O tempo da planta, que cresce para cima e para baixo
simultaneamente, certa sobre sua origem e seu destino.

