
Dona Francisca Américo dos Reis, moradora do Parque Atheneu (Goiânia), é uma exemplar parteira tradicional, ou seja, um tipo de pessoa em extinção: daquelas que dedicam a maior parte do tempo de sua vida e de seus esforços para o bem alheio sem receber mais do que a gratidão (e olha lá!). Aprendeu a ser parteira, benzedeira e raizeira quando jovem, no interior de Goiás, cidade de Araguaçu (hoje Tocantins), que naquela época era um vilarejo com pouquíssimo acesso à medicina profissional. Os conhecimentos passados de uma geração a outra e a fé eram os pilares da atuação sobre a saúde naquela comunidade, que dependia em grande parte dessa senhora para amparar o nascimento e crescimento de bebês e orientar o tratamento de enfermos.

Dona Francisca se mudou para Goiânia e se uniu a diversos grupos na busca de manter em atividade, e sob os mesmos propósitos, os saberes e práticas populares de saúde. Se antigamente, no interior, seus conhecimentos eram extremamente reconhecidos, respeitados e necessários em sua comunidade, passados tantos anos e sob novos regimentos, na cidade grande, eles passaram a ser questionados, colocados a prova e por vezes até perseguidos em nome de um controle técnico-científico e profissional cada vez maior sobre a vida.

São muitos os contrastes entre as práticas de saúde popular e as práticas da saúde médico-industrial e eles podem ser observados claramente no fazer de Dona Francisca: o acesso à tradição e a ancestralidade como fontes de conhecimento, a não-especialização de tarefas, o profundo respeito pela natureza e seus ciclos, e, por fim, a ausência de fins lucrativos, fundamentam uma produção que se difere diametralmente à outra, baseada na objetividade científica, na especialização do trabalho, na industrialização e comercialização em larga escala. Quase tudo que rodeia Dona Francisca e suas práticas na metrópole parece acusá-la de ser extremamente anacrônica. Quase tudo.

Mas o que daria sentido ao trabalho desta senhora que, talvez já na reta final de sua vida, insiste em remar contra a maré, talvez até contra o maremoto? Dona Francisca tem seu propósito de fé, mas o que a impulsionou nos momentos mais difíceis foi a procura. Diariamente, nas casas onde viveu em um bairro periférico de Goiânia, ela recebia pessoas para benzer crianças e enfermos em busca de remédios caseiros. Na banquinha da Farmácia Nossa Senhora Aparecida, todos os domingos, as pessoas buscaram sua cura, atraídas por relatos e afugentadas pelos efeitos colaterais de medicamentos industriais. Sua produção nunca supriu a demanda.

